MANIFESTO DA ADVOCACIA QUE ACREDITO

MANIFESTO DA ADVOCACIA QUE ACREDITO

Escolhi dedicar minha advocacia ao Direito das Famílias e das Sucessões porque acredito que é nessa área que as pessoas tomam algumas das decisões mais importantes de suas vidas. Casamentos, uniões estáveis, nascimento dos filhos, empresas familiares, incapacidade, divórcios, inventários e sucessão representam muito mais do que acontecimentos jurídicos. São momentos em que relações pessoais, patrimônio e projetos de vida passam a se entrelaçar de forma definitiva, fazendo com que decisões tomadas hoje produzam efeitos que poderão acompanhar uma família durante décadas.

Durante muitos anos minha atuação esteve concentrada no Direito Bancário. Foi uma experiência que consolidou minha formação técnica e estratégica, mas foi o falecimento do meu pai, em 2019, que ampliou profundamente minha forma de compreender a advocacia. A partir daquela experiência, passei a enxergar questões que antes observava apenas sob a perspectiva profissional. Compreendi que a morte de uma pessoa não inaugura apenas um inventário. Ela reorganiza a estrutura de uma família, redistribui responsabilidades, modifica a administração do patrimônio e exige que pessoas emocionalmente fragilizadas tomem decisões capazes de repercutir por muitos anos em suas vidas.

Essa mudança de perspectiva despertou em mim um interesse crescente pelo Direito das Famílias e das Sucessões. À medida que os casos chegavam ao escritório, comecei a perceber que, embora cada família possuísse sua própria história, muitos conflitos apresentavam uma característica comum. O patrimônio quase sempre ocupava o centro da discussão, mas raramente era a verdadeira origem do problema.

As dificuldades surgiam da convivência entre irmãos que deixaram de se comunicar, de herdeiros que construíram expectativas diferentes sobre o mesmo patrimônio, de casais que desenvolveram uma empresa familiar sem refletir sobre as consequências patrimoniais de uma eventual separação ou de sucessores que passaram a administrar conjuntamente bens indivisíveis sem qualquer regra previamente estabelecida para orientar essa convivência.

Foi observando essa realidade que compreendi uma ideia que hoje orienta toda a minha atuação profissional: o patrimônio não representa, por si só, a causa dos conflitos familiares. Ele revela, intensifica e torna visíveis questões que muitas vezes já estavam presentes nas relações entre aquelas pessoas. Quando esses conflitos se prolongam, suas consequências deixam de atingir apenas a convivência familiar e passam a comprometer também a preservação do patrimônio construído ao longo de uma vida.

Essa deterioração normalmente acontece de forma silenciosa. Empresas deixam de crescer porque decisões importantes deixam de ser tomadas. Fazendas deixam de receber investimentos. Imóveis permanecem anos sem destinação econômica. Custos processuais aumentam, tributos continuam incidindo e oportunidades relevantes acabam sendo perdidas. Aos poucos, o desgaste das relações familiares começa a consumir aquilo que exigiu anos de trabalho, dedicação e esforço para ser construído.

Essa constatação modificou profundamente minha forma de exercer a advocacia. Compreendi que conhecer a lei é indispensável, mas que a qualidade de uma orientação jurídica depende, antes de tudo, da capacidade de compreender a realidade daquela família. Entender como aquele patrimônio foi construído, quais valores orientam suas decisões, quais limitações precisam ser consideradas, quais responsabilidades recaem sobre cada integrante e quais consequências poderão surgir a partir das escolhas feitas naquele momento tornou-se parte essencial do meu trabalho.

Por essa razão, a compreensão da realidade sempre antecede a definição da estratégia jurídica. Cada família possui sua própria história, sua forma de conviver, seus objetivos e seus desafios. Essa singularidade exige uma análise individualizada, capaz de identificar quais instrumentos jurídicos realmente contribuirão para oferecer segurança, estabilidade e continuidade àquela estrutura familiar. A técnica continua ocupando posição central na advocacia, mas ela produz resultados muito mais consistentes quando parte de um diagnóstico completo da realidade que será enfrentada.

O Direito oferece instrumentos extremamente valiosos para organizar relações familiares e patrimoniais. Holding, testamento, doações, reorganizações societárias, convenções patrimoniais e diversos outros mecanismos possuem grande relevância quando utilizados no contexto adequado. A escolha entre eles, entretanto, somente adquire verdadeiro sentido depois que a realidade da família foi compreendida. Ferramentas jurídicas são importantes porque solucionam problemas concretos, e não porque existam soluções universais capazes de atender igualmente todas as famílias.

Essa forma de atuar também reforçou em mim a convicção de que questões patrimoniais complexas exigem permanente integração entre diferentes áreas do conhecimento. Direito de Família, Direito Societário, Direito Tributário, Contabilidade e tantas outras especialidades não competem entre si. Ao contrário, complementam-se para construir soluções juridicamente seguras, tecnicamente consistentes e compatíveis com a realidade de cada família.

A prática profissional também demonstrou que muitos processos encerram apenas a fase judicial do conflito, enquanto os verdadeiros desafios começam justamente depois da sentença. O inventário termina, mas os herdeiros permanecem administrando patrimônio em conjunto. O divórcio dissolve o casamento, mas nem sempre encerra a convivência patrimonial. Empresas continuam funcionando, imóveis permanecem em condomínio, participações societárias precisam ser reorganizadas e novas decisões exigirão diálogo e responsabilidade.

Essa realidade fortaleceu minha convicção de que a advocacia não se limita à condução do processo. Ela acompanha as pessoas na construção de decisões que continuarão produzindo efeitos muito tempo depois do encerramento da demanda judicial. Cada orientação deve considerar não apenas a solução do problema presente, mas também seus reflexos sobre a família, o patrimônio e as próximas etapas da vida.

É exatamente essa visão que orienta minha atuação profissional. Acredito que a advocacia alcança sua maior contribuição quando transforma conhecimento jurídico em decisões conscientes, capazes de oferecer segurança, preservar relações sempre que possível e construir soluções compatíveis com a realidade de cada família. Escutar, compreender, analisar e orientar constituem etapas de um mesmo raciocínio jurídico, desenvolvido com responsabilidade, técnica e visão de longo prazo. É essa advocacia que procuro exercer diariamente e é nela que fundamento meu compromisso com as pessoas que depositam em mim sua confiança.

Vanessa Gomide Martins Tibúrcio é advoga especialista em Direito das Famílias e Sucessões. Sócia do escritório Tibúrcio Advogados. Inscrita na OAB/GO sob o nº 12.603.

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